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Animação portuguesa no Cinanima’98

Este ano Portugal marcou, mais uma vez, uma presença significativa no Cinanima’98, com 10 filmes na competição internacional e 16 no concurso Jovem Cineasta Português, consolidando a tendência para o desenvolvimento deste sector demonstrado quer pela diversidade de abordagens quer pelas diferentes fontes de financiamento.

Os principais problemas sentidos são os resultantes do crescimento rápido do sector sem que o sistema de ensino o sustente. Nota-se uma falta de quadros qualificados, o que de certa forma prejudica as capacidades criativas demonstradas, nomeadamente para com o cumprimento dos tempos de produção. É pena que as escolas tenham ignorado esta forma de Arte durante tanto tempo, e que só agora se estejam a dar os primeiros passos em escolas particulares (ainda hoje não encontramos nenhum eco nas escolas de Belas Artes oficiais).

 

Aguardemos que as primeiras fornadas destes jovens animadores venham reforçar o crescimento da Animação nacional que está a ser impulsionado sobretudo pelo IPACA/ICAM, (através de um reforço das verbas atribuídas às curtas metragens de Animação), pela RTP (através do acordo RTP – Ministério da Cultura e de investimentos directos, muito especialmente no programa “Jardim da Celeste” e em séries de televisão) e, por outro lado, pelo interesse cada vez maior que as escolas vem demonstrando na realização de ateliers de formação.

 

Um outro aspecto revelador das capacidades de empreendimento nacional é a internacionalização dos meios de produção, algo reflectido no Prémio Cidade de Espinho:

Fruto da influência da Cartoon Europeia (e infelizmente também da já’ referida falta de quadros qualificados), o filme “A Viagem”, uma produção D&D para a Expo’98, foi produzido essencialmente entre Bruxelas e Paris. A técnica, complexa e perfeita, bem como as imagens soberbas deste filme justificaram a atribuição deste prémio. É pena no entanto que o argumento e a narrativa tenham sido desvalorizados em favor do deslumbre pelas imagens de síntese, pelo “ouro” e pelo número exacerbado de figurantes que acabam por se constituir como o seu principal atractivo... Uma resposta afinal perfeita a’ encomenda e ao conceito da Expo’98 que recentemente teve lugar em Lisboa.

 

Novos Caminhos

 

Na sessão Jovem Cineasta Português também se pode verificar a evolução e a consolidação de duas vertentes bem distintas: Os filmes realizados por crianças em ateliers promovidos por escolas, e os trabalhos de encomenda realizados por jovens animadores, de onde ressalta uma consolidação técnica e artística.

 

Foi de facto muito interessante verificar um crescendo do número e da qualidade de filmes realizados em escolas. Com o acompanhamento sobretudo técnico e pedagógico de estúdios consagrados como a Filmógrafo, o Cine Clube de Avanca e o próprio Cinanima, o ensino oficial começa, ao nível do secundário, a dar cada vez mais importância a este tipo de actividades. Pena foi que não tivesse havido uma maior articulação com a sessão dos Ateliers ASIFA: Teria sido seguramente muito interessante a possibilidade de trocar experiências entre os diversos intervenientes.

 

De realçar ainda a participação de “Tango de Parla”, o único filme que se poderia chamar de “autor”, realizado sem meios nem grandes conhecimentos de animação, mas que conseguiu fazer passar uma mensagem com um ambiente visual interessante e personagens credíveis. Para quem está a fazer os seus primeiros passos às escuras parece um bom começo.

 

O Prémio Jovem cineasta acabou por ser atribuído a “Lado B”- um projecto colectivo desenvolvido no Atelier da Fundação Gulbenkian, premiando desta forma uma actividade de formação que se vem desenvolvendo há  já alguns anos de uma forma um pouco aleatória, ora dirigida a jovens ora a professores ora a estudantes do ensino superior. O trabalho apresentado este ano, sob a orientação de José Miguel Ribeiro, foi talvez o mais bem conseguido e certamente o mais interessante entre todos os que foram realizados nos últimos anos.

 

José Miguel Ribeiro apresentou ainda a concurso mais dois trabalhos muito interessantes  “O Ratinho Curioso” e Genérico”, ambos para o Programa Jardim da Celeste da RTP, bem como desvendou alguns segredos da sua nova produção “A Suspeita” um projecto de 25 minutos de animação em marionetas. Do conjunto dos seus trabalhos ressalta uma excelente qualidade tanto ao nível do desenho, nomeadamente nos dos cenários lindíssimos do ”Ratinho curioso”, como da criação plástica das marionetas em volume e a da concepção cinematográfica de “A Suspeita”, como ainda ao nível da qualidade da animação do “Genérico”, que viria a ganhar o prémio na sua categoria.  O José Miguel apresenta-se assim como um jovem pai de duas lindíssimas raparigas e, sem dúvida, um dos mais promissores animadores portugueses.

 

Na segunda parte desta sessão foram apresentados alguns projectos Portugueses que se encontram em produção. Nestes projectos notou-se uma grande variedade de estéticas e de técnicas: Parece que o Desenho Animado começa a deixar espaço para as Marionetas, para a Areia e mesmo para a Gravura sobre Placas de Gesso. De qualquer forma é por demais evidente que praticamente toda esta nova geração de Animadores Portugueses sofreu uma enorme influência do Cinanima; Ao fim de 22 anos este festival começa a ver despontar os seus frutos.

 

Tempo de Evolução

 

Se em termos específicos 22 anos permitiram o desenvolvimento e a maturação daquele que é neste momento um dos mais importantes festivais do género, dum ponto de vista mais global tal espaço de tempo deu origem não apenas a uma geração de interessados mas, mais importante, à criação de bases para novos talentos acreditarem que a Animação é de facto um meio de expressão extremamente rico, versátil e viável.

 

Não será por isso completamente despropositado tentar relacionar o desenvolvimento deste festival com o desenvolvimento da Animação Portuguesa a nível regional:

A contribuição do próprio Cinanima com um atelier permanente orientado em parceria com animadores convidados é mais um elo nesta cadeia: Com a vantagem de permitir a exibição do filme realizado perante uma plateia ‘a sério’ na cerimonia de encerramento do Festival, tornando ainda mais aliciante todo o envolvimento no processo de aprendizagem. Esta relação directa entre o ‘realizado’ e o ‘exibido’ contem inúmeras vantagens óbvias, permitindo a proximidade entre os jovens frequentadores do atelier com outros realizadores convidados do festival.

 

O facto de estar essencialmente concentrada a Sul a produção de filmes de Animação comercial (genéricos para programas televisivos e séries infantis) contrasta com o caracter mais ‘artístico’ e didáctico das produções vindas do Norte, onde os filmes de autor e a referida organização regular de ateliers imperam.

 

A combinação entre estas duas vertentes, uma mais artística e outra mais comercial, é essencial e dependerá do seu equilíbrio o desenvolvimento da Animação em Portugal. Começa por isso a revelar-se fundamental a (até ao momento ainda pequena) aposta da RTP na produção Portuguesa, traduzida nas curtas para o programa infantil Jardim da Celeste. Sete filmes a concurso, um prémio (“Genérico”) e duas menções honrosas (ambas para “A Casa do João” de Daniela Duarte Rui) resultaram dessa aposta provando o que já era conhecido: Que com o devido apoio e investimento a criatividade nacional tem qualidade para se afirmar.

 

Concretização visível desta combinação é o prémio RTP - Onda Curta que se traduz na compra por parte do canal televisivo estatal de um filme seleccionado entre os concorrentes ao festival. Se já não estamos aqui a falar apenas de animação nacional, estamos por outro lado a referir algo também decisivo: O processo de cativar e alargar audiências para a curta metragem de animação, ‘produto’ ainda bastante arredado da programação dos canais televisivos, quer privados quer estatais. E este não é definitivamente um problema exclusivamente Português!

A existência deste prémio proporciona uma pequena mas não menos importante ponte de relacionamento entre o publico televisivo e o Cinanima. A inclusão de filmes de Animação portugueses neste programa será o passo seguinte nesta cadeia, confirmando perante um público nacional a realidade e a viabilidade de um meio ainda em vias de expansão.

 

Tempo de Futuro

 

Os projectos Portugueses actualmente em produção apresentados também na sessão Jovem Cineasta Português reflectiram muito mais a vertente artística do que a comercial, com as curtas metragens de autor a ocupar  um lugar cada vez mais preponderante. Esta sessão de futuros projectos revelou um futuro mais promissor do que o apresentado neste Cinanima.

 

De facto, a ausência de “curtas metragens de autor” no Cinanima deste ano poderia sugerir o falhanço total da política de incentivos e investimentos que tem vindo a ser desenvolvidos pelo IPACA/ICAM, bem como do acordo RTP - Ministério da Cultura, mas, pelo contrário, este é actualmente o sector mais activo e promissor da Animação Portuguesa.

 

Estão hoje em produção cerca de 20 curtas de autor, assinadas pela esmagadora maioria dos animadores nacionais, e como estes não são suficientes para responder a todas as solicitações ha’ ainda um grupo importante de primeiras obras em curso.

 

Esta explosão de criatividade é sobretudo impulsionada pelas condições particulares de financiamento que existem hoje em Portugal: É mais fácil montar financeiramente uma curta metragem de autor para um jovem animador à procura do seu primeiro projecto do que encontrar financiamento para séries de televisão ou longas metragens, mesmo que assinadas pelos animadores mais experientes e já com vasta obra feita e reconhecida.

 

Só os tempos de produção demasiado longos e uma estranha conjugação de diversos factores é que fizeram que, infelizmente, nenhuma destas produções estivesse pronta a tempo do festival deste ano. O ano de 1999 promete no entanto ser um dos melhores anos da Animação Portuguesa desde há muito tempo (ou mesmo desde sempre): Aguardamos pois com grande expectativa o próximo Cinanima e os filmes A Suspeita de José Miguel Ribeiro, Stuart de Zepe, Novo Mundo de António e A Noite de Regina Pessoa.

 

 

Assinam: Abi Feijó e Mestre Pepe!!

 

Nota: no último catálogo do IPACA (Cannes’98) estão de facto 20 curtas em produção! Mais 2 séries.


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