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A técnica de animação de gravura em placas de gesso não é uma técnica comum, não é uma técnica fácil, nem é uma técnica aconselhável!...Mas permite resultados plásticos ímpares!...

Introdução

 

A técnica de animação de gravura em placas de gesso não é uma técnica comum, não é uma técnica fácil, nem é uma técnica aconselhável!...Mas permite resultados plásticos ímpares!...

Não sei se o método que utilizei será o mais eficaz...esta técnica surgiu na minha vida um pouco por acaso, resultante de uma série de coincidências e da evolução de vários factores. Quando pensei pela primeira vez na história para o filme, nunca imaginei que viesse a utilizar tal técnica, nem sabia que ela era possível.

É importante, por vezes, ter esta noção de que não existem formulas nem fronteiras pré-estabelecidas e é bom manter uma porta aberta a novas ideias. Pode ser mais positivo deixar uma certa margem de liberdade criativa e deixarmo-nos surpreender por soluções inesperadas, que quase sempre enriquecem a nossa história. Existem tantas possibilidades de técnicas de animação quanto maiores e mais largos forem os horizontes da nossa imaginação.

Para provar como as coisas podem mudar, no inicio pensei fazer o filme em marionetas checas. Chegamos mesmo a construir cenários e marionetas e a filmar uma espécie de piloto!...
 
Assim, o que aqui tentarei explicar é mais o resultado de uma pesquisa pessoal do que uma "receita" ou uma "formula" para a técnica a usar.  Talvez se tivesse sido outra pessoa a fazer este percurso tivesse chegado a resultados bastante distintos!...

A ideia

 
Ter uma ideia forte e clara é essencial.

 No meu caso, tudo começou num estágio de formação em França, em que era pedido a cada um dos estagiários que criasse um argumento. Eu senti alguma dificuldade na altura, pois vinha de Belas-Artes, não tinha o hábito de escrever histórias. Então segui um conselho do realizador Abi Feijó, um dos tutores desse estágio, que me disse: " Se achares que tens algo a dizer, confia em ti, luta por isso. Se isso for realmente importante para ti, dedica-te com paixão e essa entrega notar-se-á no resultado final. As pessoas que virem o filme, de alguma forma, sentirão isso também."

Foi o ensinamento mais importante que aprendi na vida e tentei segui-lo. Assim surgiu a história para "A Noite".

Se a história que queremos contar é importante para nós, isso irá ajudar-nos em todas as etapas de execução do filme. Trabalhar em animação exige um grande investimento financeiro e pessoal, quase sempre se atravessam períodos de grande monotonia e de angústia e é um trabalho esgotante, por vezes, de vários anos. É necessário que a ideia seja suficientemente forte para nos ajudar a suportar todos os momentos difíceis e para que este esforço faça sentido.


A importância do Story-Board

 

Os personagens sempre estiveram muito claros para mim, desde o inicio e não precisei de fazer muitos estudos. Mas quando isso não está suficientemente claro e sobretudo se sabemos que iremos partilhar o trabalho com uma equipa, devem estudar-se bem os personagens de todos os ângulos e em "posing", para que não restem duvidas para ninguém.

Mas tive necessidade de fazer um Story-board e para isso peguei no lápis que estava mais à mão, que por mera casualidade, era de cor Carmim Queimado. Esforcei-me por transmitir em cada desenho a emoção que eu pretendia e para isso, dei bastante ênfase à expressão dos personagens, à textura e ao jogo de luz e sombras. Eu tinha consciência que se tratava de uma história muito simples e que viveria do ambiente e do dramatismo que eu conseguisse transmitir, do tratamento gráfico e do som.

Tentei fazer o Story-board o mais detalhado e claro possível, porque dessa forma poderia ir resolvendo as dúvidas que me surgiam a vários níveis - duvidas de colocação da câmara, de enquadramento, de continuidade narrativa, de racord entre os diferentes planos, de grafismo, etc.

Por outro lado, é necessário ser pragmático e pensar que é essencial encontrar financiamento para os nossos filmes e com um bom Story-board  será mais fácil convencer alguém a investir neles.

Quando estava terminado, tinha um conjunto muito coerente, um ambiente forte e um grafismo muito bonito, com uma cor, uma textura e um jogo de luz e sombras muito interessante. Apetecia respeitar aquele visual no filme, que começou a parecer bem mais interessante do que se fosse feito em marionetas. Havia que encontrar uma técnica que respeitasse aquele visual...

Assim o story-board revelou-se um instrumento fundamental e foi ele que determinou a escolha da técnica.

 

A pesquisa

 

Pela sua textura e pelo seu ambiente, os meus desenhos faziam-me vagamente lembrar os do filme "Kafka" de Piotr Dumala, que eu tinha visto alguns anos antes. Alguém me disse que ele tinha trabalhado em gesso, mas eu não sabia como, e na altura não tentei saber. Em vez disso, enveredei por uma pesquisa pessoal e antes de chegar à técnica que finalmente usei, fiz várias experiências com diversos materiais e com diferentes tintas e utensílios O objectivo era encontrar um meio que respeitasse os desenhos do meu story-board.

Depois de várias experiências, muitas delas frustradas, cheguei a um resultado interessante, que não só respeitava os meus desenhos, como os potencializava sobretudo na textura e jogo de luz e sombra e ainda lhes acrescentava dramatismo e poesia. Era a atmosfera que eu desejava.

Restava saber se era possível animar aqueles desenhos naquele material. Fiz um teste de animação e fiquei contente com os resultados. Estava encontrada a técnica!...

 

As placas

 

A placa de gesso tem de ser feita com alguma antecedência, pois demora cerca de uma semana até estar bem seca. Assim, para rentabilizar o tempo e porque que é um processo trabalhoso, quantas mais placas fizermos de uma vez melhor.

Devemos estudar previamente os enquadramentos que vamos utilizar para cada plano para sabermos quais as dimensões das placas que temos de construir. Faz-se então uma planificação de todos os planos. Claro que haverá  alguns planos que ainda não temos a certeza de como vamos fazer, mas esses deixamo-los para o fim.

 

Quando já sabemos as dimensões, temos que construir uma armadura de madeira para cada placa, simples mas solida, pois o gesso é quebravel e convém conferir-lhe alguma resistência.

Para que a superfície da placa de gesso fique perfeitamente lisa, esta é feita sobre um vidro. Mas antes tem que untar-se toda a superfície com uma fina camada de vaselina. Isto irá impermeabilizar a superfície da placa de gesso onde vamos trabalhar, impedindo-a de se tornar demasiado absorvente. Caso contrário a tinta com que posteriormente iremos cobrir a placa irá tingir o gesso e é necessário que permaneça esse contraste entre o branco do gesso e do escuro da tinta.

Coloca-se então a armadura de madeira sobre o vidro e fixa-se bem com fita adesiva,  para prevenir no caso de haver alguma deslocação involuntária durante o processo.

Chega a altura de fazer a primeira camada de gesso, aquela onde iremos trabalhar mais tarde. Coloca-se um pouco de água no fundo de um balde e vai-se fazendo cair o pó de gesso sobre a água, pouco a pouco, sem mexer, tendo o cuidado para que o pó vá sendo distribuído por toda a superfície da água. Se isto for feito como deve ser, naturalmente o gesso irá entrando na água, acumulando-se no fundo do balde.  Paramos de deixar cair pó de gesso sobre a água quando esta já estiver saturada.

Nessa altura, agindo com rapidez para que o gesso não endureça, mistura-se bem o gesso com a água de (preferência com as mãos), para que não hajam grumos e despeja-se esta mistura ainda liquida para o interior da armadura. Abana-se todo o conjunto durante 5 minutos. Isto irá impedir, por um lado que se formem bolhas de ar e por outro, a minha experiência demonstrou-me que isso lhe confere uma uniformidade que facilitará mais tarde o trabalho de pintura e animação.

As quantidades de água e de gesso dependem do tamanho da placa que queremos fazer. O gesso que se utiliza é gesso normal, que se compra em qualquer drogaria. A espessura da primeira camada de gesso não pode ser muito grossa, pois terá que levar outra por cima, que começaremos a preparar quando a primeira tiver endurecido. Preparam-se também, à parte, alguns emaranhados de fios de sisal.

 Quando a segunda mistura de gesso estiver pronta, confeccionada da mesma forma da primeira, mergulham-se nela os emaranhados de sisal, embebem-se bem no gesso liquido e colocam-se sobre a primeira camada. O sisal juntamente com o gesso irá conferir resistência à placa e alguma flexibilidade, minimizando os riscos que quebra.

Quando tudo estiver bem endurecido (1 hora ou mais), retiram-se as fitas adesivas, separa-se a placa de gesso do vidro e deixa-se secar, o que por vezes pode levar uma semana. Se estiver bom tempo, pode secar ao ar livre e será mais rápido.

 

A pintura

 

Entretanto, depois de ter feito a  pesquisa e de ter escolhido qual o tipo de tinta era o mais apropriado para aquela superfície e para a animação, deve fazer-se uma grande quantidade dessa tinta, que dê para todo o filme. Não podemos correr o risco que a tinta acabe a meio da produção, pois corre-se o risco de sofrer alteração de cor, sobretudo se a tinta for feita com a mistura de várias cores diferentes.

No meu caso, utilizei gouache de várias cores para obter o tom pretendido, diluído em água.

 

Interessava-me ter uma textura forte. Então, quando a placa de gesso estava bem seca, pegava numa lixa muito grossa e fazia uma textura irregular e em todas as direcções, por toda a superfície da placa.

De seguida, pintava toda a superfície com a tinta que tinha feito em grandes quantidades, utilizando uma trincha larga que espalhasse a tinta uniformemente.

Depois deixava secar, entre ½ a 1 hora e a placa ficava pronta a receber o primeiro desenho.

 

O primeiro desenho

 

Antes de fazer o primeiro desenho, convém ter já estudado o plano que se quer fazer, saber que enquadramento usar, saber a sua duração e ter uma ideia da animação que irá ser feita. Para isso faz-se estudos prévios do cenário e dos personagens em papel. Passa-se facilmente o desenho para a placa de gesso humedecendo ligeiramente a superfície da placa com água, com a ajuda de um vaporizador. Coloca-se depois o estudo em papel sobre a placa e basta decalcar o desenho com um lápis ou caneta, exercendo alguma força, para que o traço apareça perfeito na placa.

 

Depois, começa-se a trabalhar o desenho, raspando com a ajuda de um estilete, lamina  ou X-acto, com maior ou menor intensidade (mas sempre com suavidade, não é preciso “escavar” fundo) dependendo se queremos zonas mais claras ou mais escuras. Quem se dedicar a uma técnica destas, convém não ser um principiante e deve ter já alguma experiência em pintura ou desenho, logo, trará o seu estilo pessoal. Assim, creio que cada pessoa encontrará os utensílios que melhor se adaptam ao seu estilo. Se nos enganarmos ou quisermos obter mais nuances, basta corrigir essa zona com ajuda de um pincel e tinta, mais ou menos diluída em água.

O tamanho médio ideal das placas de gesso para se trabalhar é de cerca de 38cm por 30cm. Porque a textura é forte e o material e os utensílios são rudes, se a placa for muito pequena, torna-se muito difícil trabalhar, sobretudo se houverem detalhes, mas por outro lado, tem a vantagem de ser uma superfície menor, logo, implica menos trabalho e nalgumas situações pode ser vantajoso. Se a superfície for muito grande, envolve muito mais trabalho e muito mais tempo em cada imagem, mas torna-se possível trabalhar os pequenos detalhes, se isso for importante. Tendo em conta estes pressupostos, há que encontrar o equilíbrio para cada situação.

Ao raspar a superfície da placa para fazer o desenho, acumula-se bastante pó, que além de sujar o desenho, pode colar-se às lentes da câmara durante as filmagens. Para evitar isso, sempre que trabalhava o desenho, tinha sempre ao lado um mini-aspirador.

Quando estamos a tratar o desenho, é necessário acrescentar tinta que quando está húmida tem um tom diferente de quando está seca. Então, sobretudo durante as filmagens, convém ter ao lado também um secador de cabelo, para secar rapidamente a tinta para que esta seque rapidamente e se possa filmar a imagem. Por outro lado, é muito mais difícil trabalhar a superfície enquanto a tinta está húmida.

 

O desenho estará pronto quando estivermos satisfeitos com o resultado.

 

A filmagem

 

O passo seguinte será instalar a placa com o 1º desenho sob a câmara para começar a filmar. O local de filmagem deve estar bem isolado da luz e as paredes devem ser cobertas com cortinas ou pintadas de preto, para que não hajam reflexos “parasitas”. Deve estar equipado com uma truca que permita fazer movimentos de câmara. A placa deve ser muito bem fixada ao plateau, se for possível, aparafusada. Não podemos correr o risco que haja qualquer deslocação da placa durante a filmagem.

A iluminação é feita com 2 focos de luz colocados a 45º, um de cada lado da placa.

O registo das imagens pode ser feito com qualquer câmara que permita tirar 1 imagem de cada vez. Tratando-se de uma técnica directa, que exige tanto trabalho, convém que o registo das imagens seja seguro e da melhor qualidade possível. No meu caso usei uma câmara de 35 mm (uma velhíssima Debrie Parvo) destinada ao registo final das imagens.  Ao lado estava fixa uma câmara de vídeo, ligada a um gravador betacam, com um sistema que permitia fazer 1 imagem de cada vez e a um monitor vídeo. Este equipamento não se destinava ao registo final, funcionava como video-assistance e de cada vez que registava uma imagem na câmara de 35 mm, registava-a também no vídeo.

 Utilizei um gravador betacam porque tive a sorte de ter essa possibilidade. Era vantajoso, porque me permitia ter a ajuda de uma boa qualidade de imagem, mas pode-se usar outro qualquer sistema mais simples, de preferência que permita registar imagem a imagem e comparar a que estamos a fazer com a anterior.

O sistema de video-assistance revelou-se um instrumento essencial no meu trabalho, porque não só me permitia ver toda a animação em qualquer momento, como me permitia comparar o desenho que estava a fazer com o anterior, ajudando-me assim a manter as características e as proporções dos personagens. Permitia-me ainda utilizar o monitor para aí desenhar trajectórias e determinar o espaçamento entre cada dois desenhos e assim estudar melhor o "timing" e a expressão de cada movimento.

Sem este equipamento eu teria de trabalhar "às cegas" e esperar que chegasse a película revelada do laboratório, o que neste caso poderia demorar meses e era um risco muito grande, pois caso houvessem erros ou outros problemas, teria que recomeçar o plano desde o inicio!

 

A gravura em placas de gesso é uma técnica directa ou seja, quando um desenho está pronto, filma-se e em seguida destrói-se, para dar lugar a um novo desenho. No final sobra apenas uma única imagem na placa de gesso, a última que foi filmada.

Como para mim se tratava de uma técnica um pouco experimental e eu não sabia bem o que me esperava, comecei o trabalho de animação pelos planos mais simples e a principio os resultados foram bastante encorajadores. Mas quando comecei a chegar aos planos mais complexos, o trabalho começou a revelar-se mais laborioso e lento, além de que à medida que eu ia conhecendo a técnica, ia aprendendo a tirar melhor partido dela e ia exigindo cada vez melhores resultados, o que me obrigava a dedicar mais tempo a cada desenho. Nas situações mais simples, não era necessário destruir todo o desenho, por exemplo, se o personagem mexia apenas um braço, só era necessário trabalhar nessa zona, o resto ficava intacto. Mas quando todo o personagem mexia juntamente com o cenário, era necessário trabalhar toda a superfície da placa o que demorava muito tempo, pois era necessário reconstituir toda o desenho de forma a não se notar outra alteração que não fosse a do movimento desejado.

 Quando um plano era muito complexo, fazia alguns desenhos chave em papel, o que ajudava a definir o movimento. Tirava mais uma vez partido do video-assistance e com uma caneta de acetato fazia anotações no écran do monitor com as trajectórias do movimento previsto. Como através do vídeo eu podia ver o que estava a fazer, tornava-se mais fácil modificar o desenho da placa tendo como referência as minhas anotações no écran. Depois de fazer as devidas alterações, comparava então o desenho que estava a fazer com o último gravado e certificava-me se estava a ir no bom caminho ou se eram necessárias pequenas correcções.

Para ter uma noção do que já tinha feito e para prever o que ainda faltava fazer, todas as imagens que eu filmava eram registadas nas “folhas de exposição” (ou cartas de rodagem), onde estão marcados os números dos fotogramas que correspondem ao mesmo número do contador da câmara. Isto é muito útil sobretudo com a monotonia do trabalho, quando já não nos lembramos se já filmámos o desenho em que estamos a trabalhar ou não. Então consultamos a folha de exposição esclarecemos a duvida.

As folhas de exposição são essenciais nas situações em que é necessário haver sincronismo entre o som e a imagem e quando se fazem movimentos de câmara manualmente em que são necessários cálculos precisos. Estas folhas funcionam para a animação como uma partitura para a música.

 

Agora, que tudo já parece longínquo, consigo fazer uma analise mais sóbria sobre todo o trabalho, sobre as vantagens e desvantagens.

O grande problema que esta técnica tem é o trabalho e o tempo de produção que exige, que desequilibra qualquer orçamento, provocando ainda um grande desgaste físico e emocional.

Mas é maravilhoso assistir à materialização do que a principio era apenas uma ideia e que pouco a pouco se torna real. É importante verificar que a essa motivação que sentimos no inicio nunca desapareceu, apesar dos momentos difíceis e de ter passado muito tempo, por vezes anos, a nossa ideia inicial afinal era suficientemente forte, resistiu e podemos reconhecê-la  no resultado final.



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